segunda-feira, 17 de maio de 2010

>>> agenda >>>

Inclusão digital,
preservação ambiental
Projeto leva cultura, história e biodiversidade da Serra de São José para a rede pública de Tiradentes

por Rogério Alvarenga (texto e foto)

Imagine um projeto de educação digital que envolve a criação de programas a serem trabalhados por alunos da rede pública de ensino numa determinada cidade. Nenhuma novidade até aí? Ok, agora imagine esses softwares abordando os aspectos culturais, históricos e de biodiversidade de uma área de preservação. Essa é a ideia do projeto Cultura, História e Biodiversidade da Serra de São José, a ser lançado no dia 20 de maio, das 9h30 às 12h, no Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes. A inclusão digital, com ares de preservação ambiental, alcançará a rede pública de ensino do município.

A iniciativa é da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, da Pró-Reitoria de Extensão da UFMG e da Prefeitura Municipal de Tiradentes, com o apoio do Centro Cultural Yves Alves, do Instituto Histórico e Geográfico, da Escola Estadual Basílio da Gama e da APAE de Tiradentes.

Tombamento federal
A Serra de São José alcança, além de Tiradentes, os municípios de São João del-Rei, Prados, Coronel Xavier Chaves e Santa Cruz de Minas. No último dia 4, foi realizada uma caminhada pelo tombamento federal da serra, onde aconteceu a troca da Cruz do Carteiro. A degradação provocada pelas queimadas e pelo lixo é uma das principais preocupações de ambientalistas, pesquisadores, estudantes e população em geral.

[Veja fotos da Serra de São José]

terça-feira, 11 de maio de 2010

>>> ambiente >>>

Progresso-dinossauro
Nova termelétrica em Camaçari anda na contramão do equilíbrio ambiental

por Marcelo Figueiredo, licenciado em Geografia pela UEFS e morador da Gleba A, Camaçari (BA)

A partir de hoje, 12 de maio, a cidade de Camaçari (BA) engrossa as contradições com o que fora acordado nos encontros mundiais sobre a questão ambiental - Rio 92, Rio +10, Copenhague -, como também com o que fora ratificado pelo Brasil em documentos oficiais como a Agenda 21 (desenvolvimento sustentável, lembram?) ou o Protocolo de Quioto. É que hoje, em nosso querido município, será inaugurada a temida Usina Termelétrica Arembepe Energia S/A. Trata-se de uma estratégia do governo federal (pasmem!), no Poloplast, situado em plena área urbana de Camaçari - rodeada, portanto, por cerca de 250 mil seres humanos e uma infinidade de riquezas naturais.

A termelétrica contradiz até mesmo a Lei Orgânica Municipal, em seu capítulo VIII, que diz: “A execução de obras, atividades, processos produtivos, instalação de industrias e empreendimentos e a exploração de produtos naturais de quaisquer espécies, quer pelo setor público, quer pelo setor privado, somente serão admitidas quando houver resguardo do meio ambiente.”

O funcionamento da Usina Arembepe Energia S/A é uma verdadeira espoliação não só com a humanidade, mas principalmente das futuras gerações de filhos e filhas camaçarienses. Vejamos o porquê:

No nosso Sistema Solar, um dos fatores indispensáveis para a existência e manutenção da vida na Terra é a existência de uma camada gasosa, chamada de atmosfera, que envolve nosso planeta em estado de relativo equilíbrio. Nessa atmosfera estão presentes diversos tipos de gases (dióxido de carbono, oxigênio, metano, ozônio, hidrogênio, argônio), responsáveis pela manutenção do efeito estufa, que mantém o calor no planeta. Todavia, o balanço térmico gerado pelo efeito estufa na Terra pode sofrer modificações em virtude da menor ou maior concentração de alguns gases presentes na atmosfera, dentre eles o dióxido de carbono (CO2) gerado no queima de combustíveis fósseis (carvão mineral e derivados do petróleo) ou na queimada de florestas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

>>> cultural >>>

Depósito de restos
"Estamira", filme de Marcos Prado, mostra a loucura e o desprezo do homem-bicho

por Rogério Alvarenga

Em meio a toneladas de lixo, nada mais natural do que toneladas de loucura despejadas pela mente de Estamira, moradora do Lixão de Gramacho (Rio de Janeiro), cuja mãe já sofrera distúrbios psiquiátricos. Mas do lixo Estamira encontra a matéria-prima para cozinhar um macarrão "melhor que nos restaurantes"; das loucuras forma conceitos que muitos cidadãos "normais" não compreendem. Lucidez perigosa do cidadão comum, ou, como diria Clarice Lispector, "estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar?".

Já a lucidez da moradora do lixão é tão preenchida quanto a sua loucura humana e agressividade animal. Cospe fogo no ser humano, às vezes de forma insana, e a esse conjunto de insanidades chama de "trocadilo"; cospe fogo no "Deus estuprador", ou melhor, naqueles que inventaram Deus ("quem fez Deus foram os homens"). Afinal, por que alguém que fora traída, estuprada, espancada e assaltada por diversas vezes, durante sua época de cidadã comum, teria motivo para crer que Deus criara o homem à sua imagem e perfeição? E, em terra, o que acreditar que a escola ensina, numa sociedade como essa? Na escola, nós copiamos "hipocrisias, mentiras e charlatagens", diz.

A loucura que a preenche também está espalhada pela sick society de Na Natureza Selvagem. Quem tem coragem de interná-la em "clínicas de reabilitação" que desabilitam de vez a condição humana do internado? Estamira lembra do fim da vida de sua mãe, do sofrimento da verdadeira prisão em que vivem os loucos "em reabilitação". Chora com isso. Percebe e sente. E nós, também.

Exibido no dia 26 de abril, no Solar da Baronesa, São João del-Rei, como parte da programação Segunda no Solar, do Centro Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei. Foto: divulgação.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

>>> ambiente >>>

A cidade e as serras
Caminhada pede tombamento federal da Serra de São José

por Rogério Alvarenga

"Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão (...)"

Esse é um trecho da poesia "A cruz da estrada", de Castro Alves, mas bem que poderia ser um pedido de proteção à Serra de São José, onde se situa a Cruz do Carteiro, em Tiradentes. A declamação do poema aconteceu durante a troca da cruz, no dia do trabalho (ou do trabalhador), após caminhada programada para chamar a atenção da necessidade do tombamento federal da área. Os organizadores também alertaram para a degradação provocada pelas queimadas e pelo lixo.

O cenário não podia ser mais exuberante: serras a perder de vista; vegetação abundante; formações de pedra; piscinas naturais. Essa foi a paisagem avistada durante a caminhada pelo tombamento da Serra de São José, que alcança, além de Tiradentes, os municípios de São João del-Rei, Prados, Coronel Xavier Chaves e Santa Cruz de Minas.

Toda essa beleza se junta à curiosa história da Cruz do Carteiro e à furiosa tradição da degradação ambiental do homem em sua busca por bens materiais. A singela cruz simboliza a morte de um carteiro, em tempos antigos, e ao redor dela encontramos diversas pedras amontoadas, proporcionando um visual inusitado - quase Hitchcock - ao local. Os moradores dizem que, ao passar por ela, deve-se deixar uma pedra.

A caminhada saiu da Matriz de Santo Antônio, às 9h, até a serra, onde aconteceu a troca da Cruz do Carteiro. A organização foi do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes e Oficina de Teatro Entre & Vista, mas o que se viu, ao longo do caminho, foi o apoio de diversos grupos e mais de cem pessoas, entre bombeiros, ambientalistas, professores, estudantes e famílias.

Saiba mais sobre a Serra de São José:
http://ihgt.blogspot.com


Foto e ideia por Rogério Alvarenga

>>> foto.grafia >>>

A cruz da estrada
(
Castro Alves)

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.


Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.


É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.


Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.


Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.


Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.


Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.


Fotos e ideia: Rogério Alvarenga

quarta-feira, 28 de abril de 2010

>>> cultural >>>

O Contador de histórias

por Rogério Alvarenga


Quem de nós não está acostumado com as histórias contadas por propagandas, muitas vezes duvidosas e que induzem o indivíduo a fazer escolhas nocivas? Num passado recente, as propagandas de cigarro contavam histórias sobre surfistas e outros esportistas que fumavam e exibiam saúde invejável. Hoje, as de cerveja ainda fazem isso; as de governo, também. E, numa dessas histórias contadas por um governo, a mãe de Roberto Carlos Ramos "matricula" seu filho para ser doutor, advogado ou engenheiro, na Febem de Minas Gerais. Infelizmente esse enredo é verídico, retratado pelo filme "O contador de histórias".

Com cronologia em constante alternância, a obra começa mostrando Roberto Carlos adolescente, no auge de sua crise existencial, fugindo da fundação, roubando, drogando-se, e também sofrendo as consequências por isso: sendo espancado e até estuprado. Adolescente de quem todos fugiriam, certo? Ainda bem que não: Margherit Duvas, pedagoga francesa representada de forma marcante por Maria de Medeiros, acredita na recuperação do ser humano. Ouve suas histórias de criança e adolescente; vive seu crescimento. Também sofre as consequências por isso, mas tem a recompensa de ver o resultado de sua fé.

Hoje, Roberto Carlos é o contador de histórias. E tem muita coisa a nos contar, assim como o filme de dirigido por Luiz Villaça e produzido por Francisco Ramalho Jr. e Denise Fraga (ela mesma!).

Veja site do filme

Exibido no dia 19 de abril, no Solar da Baronesa, São João del-Rei, como parte da programação Segunda no Solar, do Centro Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei. Foto: divulgação.

>>> reportagem >>>

O jogo de cartas de Belo Monte

por Efraim Neto

De história antiga e localizada em uma das regiões de maior diversidade biológica e cultural do país, a região conhecida como Volta Grande do Xingu, UHE de Belo Monte é alvo de um jogo de cartas que parece não ter fim.

Para algumas organizações socioambientais, o maior projeto do Pacote de Aceleração do Crescimento (PAC) e grande alvo do palco político das eleições de 2010, a construção da Hidrelétrica de Belo Monte é uma resposta medíocre ao desafio de gerar energia para o país. Como assinala Washington Novaes, em artigo de 2001 no Estadão, a história da obra é antiga e até precisou mudar de nome; chamava-se Kararaô, na tentativa de vencer a polêmica que provocou ainda na década de 1980, quando foi anunciada. Na época, um estudo coordenado pela Comissão Pró-Índio apontou que a bacia do Xingu sofrerá modificações ecológicas, demográficas e econômicas que estão sendo subestimadas, ignoradas e ocultadas. O que podemos concluir das discussões de hoje: a história se repete!

Com leilão marcado para o próximo dia 20, a obra parece ser a menina dos olhos da Dilma Rousseff, a mãe do PAC. Belo Monte é uma usina hidrelétrica projetada para ser construída no Rio Xingu, no Pará, com potência instalada de 11.233MW. O lago da usina terá 516 km2 e será, segundo informa o governo, a única usina hidrelétrica no Rio Xingu. A sua construção está avaliada em 16 bilhões de reais, segundo o governo; e 22 a 30 bilhões segundo as empresas. O leilão para a definição do construtor da UHE de Belo Monte estava previsto para ocorrer em 21 de dezembro do ano passado, mas foi remarcada para abril deste ano. É neste momento que o jogo de cartas chega a um dos pontos mais críticos deste debate; quando são discutidos valores, ações, impactos e interesses.

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Foto: www.sxc.hu